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Sofrer é realmente necessário?

  • 15 de jan.
  • 3 min de leitura
pintura de van gogh
Retrato de Dr. Gachet, 1890

Muitas pessoas começam a fazer psicoterapia com a intenção de interromper um sofrimento advindo de algum problema na vida. De certa forma, essa motivação é muito válida: ao se perceber em sofrimento e buscar ajuda, há uma manifestação de autocuidado. Porém, ao escutar tantas histórias em minha rotina de atendimentos, percebo que o sofrimento é desvalorizado na vida da maioria das pessoas. Quando afirmo que desvalorizamos o sofrimento, quero dizer que precisamos valorizá-lo. E isso tem uma razão, na verdade, três grandes razões que quero pontuar, com a intenção de mostrar que o sofrimento é um ambiente emocional de transformações.


A experiência do sofrimento e tudo o que ele pode trazer, tristeza, dor, angústia, perde seu potencial amedrontador quando nos interessamos por ele e o valorizamos. O movimento não deve ser de eliminá-lo, mas de escutá-lo. Contudo, nossa tendência humana é nos desviarmos não apenas do sofrimento, mas também de tudo que nos conecta a uma consciência profunda: morte, finitude, tempo, escolhas… Essa é uma resposta inteligente do nosso cérebro, pois não daríamos conta de viver plenamente conscientes desses pontos o tempo todo. A autoilusão nos protege de uma vida plenamente consciente.

Um poeta e romancista do século XVIII disse: “Prefiro uma loucura que me excita a uma verdade que me deprime.” Christoph Wieland

De certa forma, a “loucura” é a autoilusão necessária para não precisarmos lidar constantemente com verdades que, ao nos depararmos com elas, geram algum nível de sofrimento. Não se trata de doença, mas de estados emocionais que se apresentam, como quando estamos em um velório e percebemos que a morte é real. A escolha do romancista é, em grande medida, a escolha da maioria das pessoas: preferir a loucura ou a autoilusão à verdade da vida consciente.


Voltando às razões pelas quais, sendo o sofrimento intrínseco à vida, precisamos valorizá-lo:

Sofrer é ação

O verbo sofrer aparece já no século XIII, derivado de sufferre. O substantivo sofrimento se forma com o sufixo -mento, que indica ação, processo ou resultado. Assim, sofrimento significa literalmente “o ato de sofrer” ou “o resultado de suportar”. Curiosamente, o sufixo -mento é muito utilizado em português e aparece em palavras como nascimento, conhecimento, movimento. Em todos os casos, indica o processo ou resultado da ação do verbo correspondente.


Sofrer é coragem

Quando sofremos, nos tornamos vulneráveis. É nesse momento que nossa rede de apoio precisa entrar em ação. É o momento em que você precisa dar espaço para ser cuidado e amparado. Isso é um ato de coragem: abrir-se para o outro, reconhecer seu sofrimento e permitir que alguém o acolha.


Sofrer é necessário

Sem sofrimento, não há crescimento. Ao observarmos a natureza, vemos isso claramente: a planta precisa romper o solo para crescer. A lagarta precisa entrar no casulo para se transformar. Esse rompimento é uma passagem para algo maior que está por vir.


Foram descritos aqui aspectos de um sofrimento saudável, que faz parte do processo natural da vida. Quando, porém, o sofrimento se torna patológico, porque sofrimento não é doença, mas pode se tornar, é essencial buscar ajuda. O sofrimento deve ser transitório, como uma estação do ano ou como a água que corre: quando se estagna, transforma-se em adoecimento. Assim, respondendo ao título, sofrer é necessário e fundamental. Precisamos abandonar a ideia de viver apenas o que nos agrada e aprender a aceitar a completude e a complexidade da existência, pois é nesse encontro que se revela a verdadeira experiência de estar vivo.

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