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Como Viver em Conexão com os Próprios Instintos

  • 29 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura
uma mulher na praia
''Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.” — Clarissa Pinkola Estés, Ph.D.

O livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, marcou minha vida de forma profunda. Após a leitura, nasceu uma nova versão de mim. Passei a ouvir com mais frequência que sou corajosa, autêntica e ousada — e confesso que muito disso surgiu quando me permiti ser uma mulher selvagem.


A autora, psicanalista junguiana, mergulha em contos folclóricos e mitos ancestrais para revelar o arquétipo da Mulher Selvagem — aquela que vive em conexão com seus instintos, sua intuição e sua força interior. Clarissa defende que a sociedade patriarcal reprime essa natureza feminina, transformando mulheres em versões domesticadas de si mesmas. O livro é um convite ao resgate da essência, da liberdade e da sabedoria ancestral que habita cada mulher.


Vivemos em uma cultura normativa, machista e silenciadora. Mulheres que desejam mais, que denunciam negligências ou exigem direitos básicos são frequentemente marginalizadas. Durante minha graduação, compreendi que lutar pelos direitos das mulheres é urgente — e que o silêncio imposto precisa ser rompido. Por isso, antecipando a temática do Agosto Lilás — campanha nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, inspirada pela Lei Maria da Penha e marcada por ações de conscientização, empoderamento e incentivo à denúncia — trago um trecho simbólico da obra que nos inspira a viver com mais verdade. O Agosto Lilás não é apenas um mês no calendário, mas um espaço potente de escuta, afirmação e mobilização coletiva que nos lembra: romper o silêncio é um ato de coragem.


Normas gerais para a vida dos lobos — e das mulheres

Clarissa apresenta 10 normas que regem a vida dos lobos. Ao transpô-las para a vida das mulheres, revelamos um guia de reconexão com nossa essência:

Norma do Lobo

Transposição para a Mulher Selvagem

1. Coma

Nutra-se física, emocional e espiritualmente. Não aceite migalhas — nem de afeto, nem de respeito.

2. Descanse

Permita-se pausar. O descanso é resistência em uma sociedade que exige produtividade constante.

3. Perambule nos intervalos

Explore o desconhecido. Caminhe por novos territórios internos e externos.

4. Seja leal

Cultive lealdade a si mesma antes de tudo. Honre seus valores e sua verdade.

5. Ame os filhos

Ame profundamente — seus filhos, suas criações, seus projetos. O amor é força criadora.

6. Queixe-se ao luar

Expresse sua dor. Reivindique espaço para sentir, lamentar e curar.

7. Apure os ouvidos

Escute sua intuição. Ela é a bússola da mulher selvagem.

8. Cuide dos ossos

Cuide da sua história, das suas raízes, da sua ancestralidade. Os “ossos” são sua base.

9. Faça amor

Viva sua sexualidade com liberdade e prazer. O corpo é território sagrado.

10. Uive sempre

Expresse-se. Grite, cante, escreva, dance. Uivar é afirmar sua existência.


“Se qualquer mulher sentir que precisa de qualquer coisa além de si para legitimar e validar sua existência, ela já estará abrindo mão de seu poder de se autodefinir, de seu protagonismo.” — Bell Hooks, Feminismo é para todo mundo

A jornada rumo à reconexão com a mulher selvagem é, antes de tudo, um retorno ao lar: àquilo que somos antes de sermos moldadas. Ao ecoar as palavras de Bell Hooks, compreendemos que recuperar nosso poder passa pela autodefinição — não como resposta à sociedade, mas como afirmação de uma existência inteira e indomesticável. Nesse caminho, preservar a saúde mental se torna um ato de resistência: reconhecer limites, cultivar o cuidado consigo e buscar ajuda quando necessário são gestos que reafirmam a dignidade da nossa experiência. No reencontro com os lobos que habitam nossa alma, deixamos de temer o instinto e começamos a honrar a verdade que pulsa sob a pele.

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